vou começar agora

é porque não sei até que ponto faço isto por mim. não sei até que ponto não o estou a fazer por eles, para eles, para eles gostarem, para eles falarem e dizerem que fica bem. não sei até onde é que ainda tenho interesse nisto nem sei se é isto que quero para mim. acho que não quero nada para mim. acho que quero só andar por aí de mão dada com Ele e não ter de fazer mais nada. e não querer fazer mais nada. acho que o meu problema é não querer saber de nada mas querer saber sempre de alguém, que é sempre o mesmo alguém, são sempre os mesmos alguéns. porque a mim é-me indiferente que o faça ou não mas a eles sei que não é. para eles sei que tenho de fazer. e então eu faço mas não sinto nada por fazê-lo nem sei se alguma vez sentirei. se calhar estou só cansada e amanhã já me arrependo de pensar assim.

Carolina

morrer contigo

morrer como tu era a coisa mais bonita que me podia acontecer agora. levar-me daqui, para longe ou para perto mas levar-me daqui e fazer-me acreditar que não tinha de voltar nunca mais. mesmo que fosse mentira. mas morrer como tu. morrer sem dor, morrer depressa mas morrer calmamente, morrer sem morte. morrer como tu era morrer sem morrer e ficar sem ficar. era só morrer. era só ficar por aí, não por aqui, era só morrer por ir e nunca mais poder voltar. e nunca mais querer voltar. morrer como tu era ser como tu, era ser como eu quero, era ser como tu queres. ser como nós. morrer como nós? morrer como tu e saber que não tenho de saber nada, que não tenho de dizer nada, que posso só morrer e ficar assim, morta sem ser cadáver. desligar-me. desligar-me de tudo menos de ti e de nós e ficar assim, morta para sempre. morta como tu. felizes para sempre, juntos, como queremos, longe da vida. longe daqui. mortos.

Carolina

absinto

não gosto de flores porque estão mortas logo quando nascem. não gosto de lhes ver o corpo em decomposição, não gosto de lhe ver partes do esqueleto e larvas cegas a passear-se por lá. não gosto de flores porque não gosto de flores. as flores estão mais mortas do que o sangue que dantes me corria nas veias. e atentai, que esse sangue estava mesmo muito morto. sujo também, mas principalmente morto. e eu não gosto de flores porque me lembram do dia em que estive horas e horas de joelhos no chão, a cuspir sangue morto. é como se cuspisse as próprias flores e as pétalas ficassem presas na minha garganta. e eu tentava falar, tentava expirar e tudo o que saía da minha boca se resumia a um vómito gigante de nada. flores nojentas, flores assassinas. disse-me um velho mendigo que são as flores que nos matam o sangue. não sei se é verdade se não, se calhar era só uma história para eu ter pena do seu sangue doente e dar-lhe mais vinte cêntimos. ou se calhar é mesmo verdade, porque os velhos mendigos têm sempre razão, disse-me um pássaro. e se os pássaros dizem... mas como eu ia dizendo: o dia em que cuspi o meu sangue morto. cuspi-o diretamente na terra e vieram logo os demónios lambê-lo; saliva minha na saliva deles, sangue meu no sangue deles. e quando regressei a casa levava a alma limpa e a blusa manchada de verde. levava a blusa manchada do verde do meu sangue e a alma limpa dos demónios, ou da própria Besta, que era eu.

Carolina

nota a ti

às vezes isto de o meu cérebro ter que viver longe de ti entristece-me. começo a pensar na probabilidade de ter ficado sem um pedaço de córtex, consequência de uma das vezes em que me tentaste devorar. (felizmente sempre nos apercebemos a tempo de que apesar de teres lugar para mim entre os pulmões, jamais terias espaço para tudo o que eu tinha para te dizer e as tuas costelas acabariam por se partir duas a duas. quase que consigo ouvir. crac, crac.)
mas continuando. começo a pensar que se calhar uma das tuas dentadas me quebrou o crânio e depois talvez se tenha formado alguma espécie de fenda e eu tenha ficado com um nó de cérebro entalado na tal fenda. e talvez a pressão do osso tenha sido tal, que esse pedaço de cérebro se tenha desprendido do resto e caído no chão.
e eu aposto - APOSTO - que o vento o levou até uma qualquer estrada movimentada e que aí, depois de espezinhado, atropelado e quase esmagado, foi levado por um pássaro. um pássaro feio como a morte, com meia dúzia de passarinhos feios para alimentar no ninho. e eu estou em crer que esses passarinhos feios, que se alimentaram de mim, são os pais de todos os pássaros que agora existem. e estou em crer também que é por isso que agora tu não queres nada com pássaros e os pássaros não querem nada contigo. é porque o bocado que me falta, é o bocado que faria com que eu não quisesse saber de ti.

Carolina
blog? São ensaios cegos, lúcidos, físicos & metafísicos. É uma mente deteriorada e uma mão cansada. Ou incansável. Relógios parados. E sangue? (...) Mas sobretudo perda de tempo. E possivelmente mais qualquer coisa. Não sei. Incerteza também.

yeah, thanks

© 2010, Luna