Meia noite e três quartos

Não precisas de dizer que a minha música não combina com a noite que por aqui se vive nem tão pouco precisas de me lembrar que não é bonito andar descalça na baixa da cidade. Não precisas, porque eu sei. Eu mesma não combino com este ambiente, com estas pessoas. Mas gosto disto aqui, gosto tanto! Gosto da noite que se vive por aqui, gosto do ar que se respira, do barulho quase silencioso, do cheiro do tabaco. O cheiro do tabaco aqui é diferente do cheiro do tabaco nos outros sítios. Gosto da lua como ela está hoje, amarelada, reflexa no rio. Gosto da torre da universidade ali no alto, das casas antigas, coloridas, mas gastas. Gosto das luzes, da ponte que atravessa a água de um lado ao outro, do movimento agradável, e desta espécie de vento que nos tem acompanhado ultimamente. Gosto muito. Gosto sobretudo de pensar em tudo o que acontece, não dentro de mim, antes à minha volta. Pensar nas pessoas que estão a arranjar-se em casa, para sair, divertir-se. Nas pessoas que se vestem de lantejoulas, com acessórios metálicos e purpurinas no corpo todo; pessoas que não brilham naturalmente como a nossa cidade. Há ainda os que saem não para se divertir mas antes para pensar, reflectir ou mesmo fugir. Esses chegarão mais tarde, quando tudo acalmar nas ruas, nas estradas, digo-te eu, que estou farta de os observar. Pessoas que vão trabalhar, pessoas que chegam do trabalho, pessoas que estão felizes, pessoas que estão sozinhas, pessoas que se divertem, pessoas que procuram não se sabe o quê. Pessoas que morrem. Imagina só, quantas pessoas morrem nesta cidade enquanto os nossos pés se banham no Mondego. Imagina só quantos enfrentam o desespero enquanto nós somos engolidos pela calma que por aqui paira. Também há os que por esta hora estão debaixo dos lençóis. E já se sabe que debaixo dos lençóis ou se dorme ou se fode. Não, não necessariamente debaixo dos lençóis, provavelmente também no chão, em cima de uma mesa ou mesmo na rua, mas tu percebes, sexo. Já pensaste em tudo o que temos neste sítio? Temos de tudo e é por isso que eu gosto. E eu sei que não combino com este sítio, que os meus pés descalços não combinam com este sítio, que o meu cabelo despenteado e o meu aspecto desleixado não combinam com este sítio, sei que a minha música idem aspas; sei. Mas também sei que não arranjaria melhor sítio para estar, melhor sítio para viver isto, para viver tudo, para ouvir a minha música. Para te ouvir.
E agora talvez seja altura de pararmos de pontapear o Mondego (e já estamos encharcados!), antes que ele se queira vingar nas nossas vidas e privar-nos de mais noites como esta.


Carolina
blog? São ensaios cegos, lúcidos, físicos & metafísicos. É uma mente deteriorada e uma mão cansada. Ou incansável. Relógios parados. E sangue? (...) Mas sobretudo perda de tempo. E possivelmente mais qualquer coisa. Não sei. Incerteza também.

yeah, thanks

© 2010, Luna