apetecia-me

entras em casa à minha frente, deixando a porta aberta atrás de ti, para que eu a feche. sempre adorei esse teu "cavalheirismo".  o quarto desarrumado apresenta novamente aquela luz de tonalidades estranhas, que me faz lembrar uma velha fotografia a sépia. cama por fazer, lixo no chão, cinzeiros virados ao contrário e até velhos invólucros de preservativos, que sabe Deus onde estarão agora. um caos, diriam as nossas avós. um lugar acolhedor, digo-te eu. mexes nervosamente em cima da mesa, no sofá, debaixo de uma pilha de roupa suja. adivinho que te falta o isqueiro e passo-te o meu. obrigado? isso é para os burros. pouco depois já tu estás recostado na cama, de olhos semicerrados, envolvido numa nuvem de fumo. sempre te deu um prazer imenso, esse acto auto-destrutivo. observo-te e solto um dos meus risinhos irritantes. olhas para mim de alto abaixo como se dissesses "ah, estavas aí?", mas acabas por sorrir também. então, tudo bem? deixa-te de merdas, despe-te.

Carolina
blog? São ensaios cegos, lúcidos, físicos & metafísicos. É uma mente deteriorada e uma mão cansada. Ou incansável. Relógios parados. E sangue? (...) Mas sobretudo perda de tempo. E possivelmente mais qualquer coisa. Não sei. Incerteza também.

yeah, thanks

© 2010, Luna