sexta-feira treze

Dantes pressionava as veias dos meus pulsos demoradamente e libertava-as de repente só para ter a ilusão de que o meu sangue se evaporava. Entretanto devo ter-me cansado, não sei. Sei é que desde a outra noite - a noite em que me apareceram vidros partidos num sonho qualquer - te imagino suspenso, pendurado do tecto, tens as mãos cortadas, voltadas para baixo, e o sangue escorre-te pelos dedos e vai caindo no chão gota a gota. Gota a gota. E as veias que eu me divertia a esmagar nos meus pulsos, saltam agora nos teus mas mais grossas e azuis. Não sei como é que cortaste as mãos, mas gosto da ideia dos vidros, portanto suponhamos que foi assim. 
As nossas mãos podiam ser a coisa mais fantástica que já alguém viu. Os nossos dedos podiam ser minhocas pegajosas que se enrolam umas nas outras e se roçam sem parar e nós podíamos ser bichos podres e enraivecidos.
Mas não, tu continuas suspenso, sempre suspenso, sempre a sangrar e eu olho para as minhas mãos e só queria que estivessem mais sujas do que as tuas. E não estão.
De resto, cheira-me a gato todo o dia; do gato preto que te ofereci e tu recusaste meio a dormir. São coisas.

Carolina
blog? São ensaios cegos, lúcidos, físicos & metafísicos. É uma mente deteriorada e uma mão cansada. Ou incansável. Relógios parados. E sangue? (...) Mas sobretudo perda de tempo. E possivelmente mais qualquer coisa. Não sei. Incerteza também.

yeah, thanks

© 2010, Luna