absinto

não gosto de flores porque estão mortas logo quando nascem. não gosto de lhes ver o corpo em decomposição, não gosto de lhe ver partes do esqueleto e larvas cegas a passear-se por lá. não gosto de flores porque não gosto de flores. as flores estão mais mortas do que o sangue que dantes me corria nas veias. e atentai, que esse sangue estava mesmo muito morto. sujo também, mas principalmente morto. e eu não gosto de flores porque me lembram do dia em que estive horas e horas de joelhos no chão, a cuspir sangue morto. é como se cuspisse as próprias flores e as pétalas ficassem presas na minha garganta. e eu tentava falar, tentava expirar e tudo o que saía da minha boca se resumia a um vómito gigante de nada. flores nojentas, flores assassinas. disse-me um velho mendigo que são as flores que nos matam o sangue. não sei se é verdade se não, se calhar era só uma história para eu ter pena do seu sangue doente e dar-lhe mais vinte cêntimos. ou se calhar é mesmo verdade, porque os velhos mendigos têm sempre razão, disse-me um pássaro. e se os pássaros dizem... mas como eu ia dizendo: o dia em que cuspi o meu sangue morto. cuspi-o diretamente na terra e vieram logo os demónios lambê-lo; saliva minha na saliva deles, sangue meu no sangue deles. e quando regressei a casa levava a alma limpa e a blusa manchada de verde. levava a blusa manchada do verde do meu sangue e a alma limpa dos demónios, ou da própria Besta, que era eu.

Carolina
blog? São ensaios cegos, lúcidos, físicos & metafísicos. É uma mente deteriorada e uma mão cansada. Ou incansável. Relógios parados. E sangue? (...) Mas sobretudo perda de tempo. E possivelmente mais qualquer coisa. Não sei. Incerteza também.

yeah, thanks

© 2010, Luna